terça-feira, 12 de agosto de 2008

Basta de chico-espertismo


Acho que chegou o tempo de dizermos "basta!" ao chico-espertismo, à desconsideração, à falta de respeito que grassam na nossa sociedade e que é facilitada com a falsa ideia, que por vezes passa, de que só temos direitos e não deveres.
No dia 11/08/2008, dirigi-me ao Centro Comercial ?Guimarães Shopping? sito em Guimarães. Faltavam alguns minutos para as 22:00 horas e não quis deixar de satisfazer o desejo da minha filha de comer um gelado. Aí chegado, dirigi-me ao espaço comercial da ?Olá? situado no 1.º andar junto às escadas rolantes, em passo lesto, porque faltavam dois minutos para as 22:00 horas e eu suspeitava que esta seria a hora de encerramento desse espaço.
Quando lá cheguei - antes das 22:00 horas - estava um grupo de clientes a ser atendido e que já tinha pago os gelados e, na fila da caixa registadora, além de mim e das minhas filhas, estava um cliente à minha frente, à espera de ser atendido.
A espera não foi muita! Cerca de um minuto depois, quando aguardávamos que uma das duas empregadas nos atendessem - não havia mais clientes atrás de mim - fomos surpreendidos pela declaração de uma das funcionárias que nos comunicou que a partir daquele momento estavam encerrados, ao mesmo tempo que colocava uma espécie de painel na caixa registadora e que apagava as luzes daquele espaço. Incrédulo, ainda balbuciei um “Estão encerrados?!” ao que a funcionária, com um ar inflexível, me disparava um seco “Sim”. O cliente que me antecedia não conseguiu mais do que um olhar inexpressivo, enquanto se afastava do local, silencioso.
Senti-me tentado a pedir o Livro de Reclamações para lavrar o meu protesto escrito, mas depois antevi uma discussão inútil porque certamente a dita funcionária iria esgrimir o facto de já ter encerrado e não ter de me fornecer o Livro de Reclamações e eu ver-me-ia obrigado a solicitar a presença da PSP, para ver cumprida a lei.
Antevi a discussão, os incómodos e o desperdício dos meios - a PSP, decerto teria coisas mais importantes para fazer do que fazer deslocar uma viatura ao Centro Comercial - e, francamente, um gelado não valia isso. Mas senti-me profundamente revoltado.
Não é pelo gelado que pouco vale, é pelos princípios, pelo respeito pelos outros, pela consideração que todos devíamos merecer.
Enquanto me vinha embora não pude deixar de passar em revista as incivilidades com que frequentemente me deparo, desde o caroço da maçã, as cascas de laranja, a lata de refrigerante ou a garrafa de cerveja, que são arremessadas das viaturas que circulam nas nossas estradas, ou o insulto fácil do condutor que nos atinge quando demoramos, mais do que ele pretendia, a ultrapassar outra viatura e o obrigamos, embora por breves momentos, a respeitar os limites de velocidade, até concluirmos a manobra, não lhe dando o privilégio da equiparação a viatura em missão urgente de socorro, com total impunidade, a que se acha com direito.
Ou quando abrimos a porta a alguém e lhe permitimos a passagem, ou damos a prerrogativa a alguém de executar uma manobra estradal sendo nosso o direito a executá-la, sem que, em qualquer caso, nos seja dirigido um simples obrigado, como se exigia a uma mente minimamente cordata, como se nós fôssemos obrigados a abrir portas a alguém ou a ceder a prioridade na estrada a que temos direito.
Acho que chegou o tempo de dizermos "Basta!"ao chico-espertismo, à desconsideração, à falta de respeito que grassam na nossa sociedade e que é facilitada com a falsa ideia, que por vezes passa, de que só temos direitos e não deveres.
O problema é nosso e só nós somos responsáveis pelo estado de coisas a que chegamos. É urgente incrementar efectivamente aulas de educação cívica a começar logo no ensino básico para que as crianças – os homens e mulheres de amanhã – possam ter uma outra educação e consideração pelo próximo e mesmo partilharem em casa tais princípios, quando eles aí não existam.
Resta-nos a esperança de que as referenciadas situações não sejam apanágio da maioria dos portugueses, como cremos que não são.

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