Uma notícia. A carta de condução por pontos - que retira a licença de condução ao fim de algumas multas - fez cair os acidentes graves em Espanha. Excelente notícia. Mas que esconde uma má: agora, quem precisa de transplante de órgãos espera mais tempo. Segundo o jornal El País, com a quebra de acidentes rodoviários (os maiores causadores de morte de jovens) escasseiam os órgãos em bom estado: há 15 anos, 43 por cento dos doadores vinham dos acidentes; em 2007, só dez por cento... Outra notícia. Segundo o jornal Nice-Matin, os veraneantes da Côte d'Azur coçam-se muito: a alforreca Pelagia noctiluca já atacou mais de 500 banhistas. E é uma surpresa. Desde há 200 anos que estes animais gelatinosos são estudados e sabe-se que aparecem num ciclo imutável. Ora este é o oitavo ano seguido que esta alforreca incomoda, um recorde nunca visto. Será que a Pelagia noctiluca veio para ficar? Sim e estas podem ser as causas: as pílulas contraceptivas e as hormonas que limitam os efeitos da menopausa entram nas águas do Mediterrâneo (pois as banhistas que as usam também entram). As pílulas diminuem a reprodução do atum e as hormonas "feminizam-no" - daí haver menos peixes. E menos predadores das alforrecas. E mais e perenes alforrecas.Sobre a crise institucional belga, o jornal francês Le Monde falou com um especialista de questões europeias, Philippe Moreau-Defarges. Este receia que "o pacto de Estado", que ao longo da História soldou a maioria dos países europeus, possa estourar por todos os lados, e não só entre valões e flamengos. E qual o papel da União Europeia nessa desintegração dos Estados? "A integração europeia teve um papel desintegrador sobre os Estados membros. Os Estados perderam muitas competências que foram transferidas para a UE, e muitos grupos estimam que não têm mais necessidade dos Estados existentes já que há a Europa", disse o investigador do Instituto Francês de Relações Internacionais.Três notícias de jornais - uma sobre tragédias humanas, outro de ambiente e outra de política internacional - e todas com a preocupação de, além de debitar o facto, propor "porquês" para ele, causas e consequências. É a diferença entre um jornal e uma agência de notícias (esta pode contentar-se em dizer rapidamente: "Kennedy morto"). Há uma semana, li num jornal que dois irmãos portugueses gastaram uma fortuna contratando detectives para intimidar, seguir e insultar, durante dois anos, um editor. Continuo sem saber porquê. Continuo, pois, sem ter lido nada. Esta é a minha crónica dedicada à campanha: quando a polícia quiser filtrar informações para os jornais, estes só devem aceitar informações que digam alguma coisa. O crime não é menos que os belgas ou as alforrecas.
DN
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